“É claro que a gente sabia que seria um risco a utilização dessa garotada. É um time que ainda oscila, faz um bom período e depois cai” (Geninho, após a derrota para o Náutico)
Essa é a nova desculpa do Atlético. O time está perdendo os jogos porque é jovem. A explicação seria a seguinte: como foram promovidos muitos garotos das categorias de base, a equipe é inexperiente e paga o preço do noviciado. Tem bons momentos, mas acaba fraquejando e sendo superada em momentos decisivos. A tese faz sentido. Resta saber se é verdadeira. Vamos aos fatos:
1 – O time é mesmo jovem?
Tomemos a escalação titular do jogo contra o Náutico para análise. Primeiro temos de decidir qual é o critério para definir juventude. Pode ser meramente a idade, mas isso não diz tudo. Por uma série de fatores, jogadores muito jovens estão sendo promovidos às equipes profissionais. Acho que o critério que pode ser estabelecido é o fato de nunca ter disputado um Campeonato Brasileiro da Série A. Do time titular contra o Náutico, apenas dois atletas se encaixam neste quesito: o lateral-direito Raul e o atacante Wallyson.
Todos os demais já jogaram Campeonatos Brasileiros. Não são “garotos”, na expressão usada por Geninho. Galatto passou por momentos dificílimos no futebol. Esteve na Batalha dos Aflitos. Experiência para ninguém botar defeito. Antônio Carlos, Marcinho e Rafael Moura ainda não são veteranos, mas têm rodagem. Já jogaram no eixo Rio-São Paulo e no exterior. Chico, Rafael Santos e Márcio Azevedo estão no início de carreira, mas também não são novatos. Já estavam aqui no ano passado no momento delicadíssimo da luta contra o rebaixamento. Enfrentaram uma pressão muito maior do que esta de início de campeonato. Não haveria nenhum motivo psicológico para tremerem agora. Pelo menos não por falta de experiência. Rafael Miranda veio recomendadíssimo por Geninho e foi colocado imediatamente no time justamente por sua experiência – muitos anos de Galo, inclusive no calvário da Segundona.
Quer dizer, restariam só dois jogadores que poderiam se encaixar no conceito de “garotada”: Raul e Wallyson. Mesmo assim, com certa experiência. Raul jogou pelo menos uma dezena de competições oficiais pelas seleções brasileiras sub-15 e sub-17. Vão dizer: é diferente jogar na base e no profissional. É verdade, mas disputar competições oficiais no exterior com a camisa canarinho não é uma experiência desprezível. Wallyson é um novato em Série A, mas já jogou a Série C pelo ABC, enfrentando todo o tipo de dificuldades imagináveis, e foi ídolo de uma torcida respeitável. Não é pra qualquer um. Quer dizer: mesmo os mais novos não são assim tão ingênuos.
2 – Os jovens tremeram?
Vamos em frente: ficou claro que o time fraquejou pela inexperiência da “garotada”? Um dos novatos, Wallyson, marcou os dois gols do Atlético. Foi o melhor jogador do time. Se houve alguma oscilação, foi para cima e não para baixo. Raul também fez uma boa partida. Quem falhou decisivamente foi o sistema defensivo, especialmente Galatto e os zagueiros de área. O tarimbado Marcinho esteve apagado. O experiente Rafael Moura mal tocou na bola. Quer dizer, ficou evidente que os erros não foram relacionados à juventude do time. Podem ser atribuídos à qualidade técnica e à formação tática, mas não à inexperiência.
3 – Não tem jeito de dar mais experiência ao time? – Parte I
Geninho tem no banco de reservas um jogador que simplesmente tem no seu currículo a disputa de um Copa do Mundo e de uma Libertadores da América. Título de campeão nacional e passagem pelo Bayern de Munique, um dos maiores clubes do mundo. Seu nome é Julio dos Santos. Joga em uma posição carente neste time, a de armação de jogadas. Mas ele não joga. Não se sabe o porquê. Fez uma partida ruim contra o Coritiba, é verdade. Mas não teve mais nenhuma chance depois disso. Pelo menos no segundo tempo poderia ser testado. Se Geninho estava preocupado com a “oscilação” da garotada, por que raios colocou Pimba e não Julio dos Santos? Não tem explicação.
Aliás, Julio dos Santos teria de ter entrado quando Geninho decidiu que iria sacar Wesley. Se a ideia era recompor a defesa com três zagueiros para suportar a pressão dos três atacantes do Náutico, a solução mais adequada seria recuar Chico (eleito o melhor zagueiro do Paranaense) para jogar ao lado de Antonio Carlos e Rafael Santos. Julio dos Santos entraria para segurar a bola no meio-campo, organizar o time e, como queria Geninho, trazer calma ao time. Além disso, sua entrada sinalizaria a todos os jogadores que o técnico não abriria mão de atacar o adversário, mesmo já em vantagem. Mas Geninho optou por colocar Gustavo, mais um zagueiro, e deu o sinal: vamos nos retrancar. Pior do que a entrada do zagueiro foi o que ela representou. Um símbolo de covardia, da falta de confiança do técnico em seus comandados.
Julio dos Santos não entrou em campo nem depois, quando Geninho optou por tirar Marcinho. Desta vez, o escolhido foi Pimba, de 18 anos, 30 jogos pelo Atlético e nenhum gol marcado. Um currículo nada animador para o meia-atacante. Julio dos Santos continuou no banco. Depois, o técnico reclamou da falta de experiência. Dá para entender?
4 – Não tem jeito de dar mais experiência ao time? – Parte II
Havia uma maneira bem eficiente para dar mais “cancha” aos guris. Seria a de ter promovido a entrada deles durante o Campeonato Paranaense. Raul, Fransérgio, Patrick e Manoel poderiam muito bem ter atuado em mais partidas do Estadual. Todos os clubes do Brasil usam os campeonatos estaduais para arrumar o time para o Brasileiro. O Atlético não fez isso. Vão dizer: se tivesse feito, correria o risco de ter perdido o título. Não concordo. É impossível discutir o que teria acontecido se os jogadores tivessem sido outros. Mas para não ir muito longe, diria apenas que esses novatos poderiam pelo menos ter participado do segundo tempo de jogos contra Paranavaí, Cianorte, Iraty, Paraná etc. Já ajudaria a dar entrosamento com essa equipe. Mas o Atlético parece que foi surpreendido com a chegada do Campeonato Brasileiro. De uma hora para a outra, surgiu essa competição e precisamos usar os “garotos”.
5 – Mas falta alguma coisa ao time?
Claro que falta. Para começar, o time carece de qualidade técnica. Falta principalmente um meia armador que faça o time jogar, crie opções de ataque e chegue na frente para concluir. O time também precisa de um líder. Já escrevi isso antes e repito: precisa de uma liderança. Isso é diferente de experiência. O sujeito pode ser o mais experiente do mundo e não ser um líder. E pode ser um garoto líder (embora isso seja mais raro). Um jogador assim seria suficiente para contagiar o grupo, mexer com os brios de todo mundo depois de levar um gol e evitar uma derrota vergonhosa como estas duas últimas. Por fim, falta Geninho definir uma equipe titular e uma formação tática.
6 – Concluindo
O time não é tão experiente quanto quer pintar Geninho. A espinha dorsal da equipe é a mesma do ano passado e ficou bastante calejada com a luta contra o rebaixamento, quando a pressão era muito maior do que agora. Além disso, os jogadores mais jovens não cometeram erros fatais – ao contrário, eles têm jogado bem. Para finalizar, o Atlético possui jogadores tarimbados e de reconhecida qualidade técnica que não vêm sendo aproveitados. Falta, porém, um capitão.